"O desenvolvimento das qualidades físicas de base desligado do conteúdo do jogo pode, certamente, adaptar o organismo às condições de esforço durante o jogo, mas não pode adaptar, ao mesmo tempo, o comportamento próprio a este, ou aquele jogo" (Mahlo, 1997:52).
Afirmação interessantíssima. O que será que este autor de referência nos estará a dizer, ou nos disse desde 1966 (1ª edição)?!
2 comentários:
Ora cá está um tema que levanta muitas questões e que cria muitas dúvidas. A preparação física, actualmente ainda é o parente pobre na "elaboração/preparação" de equipas de competição, essencialmente amadoras das várias modalidades desportivas, já para não falar nos escalões de formação onde se cometem autênticas barbaridades.
A maior parte, senão quase a totalidade dos treinadores tem e vai ter sempre uma enorme dificuldade para contornar esta variante (física)!
Senão vejamos, a nível técnico ainda é possível analisar e descobrir/seleccionar atletas que tenham as determinadas características, a nível táctico os "misters" podem fazer várias conjunturas, decidir o seu modelo de jogo e respectivo sistema e dinâmica da sua equipa, mas ao nível da preparação física e respectivo momento de forma do atleta o treinador pode apenas prever/aproximar a condição necessária durante a época, mas nunca atingirá a perfeição objectiva.
Além do mais, como refere o autor a preparação física dissociada dos comportamentos base do jogo até pode promover alguma adaptação e melhoria da condição física, mas será uma condição adquirida irreal ao jogo e distante do tipo de "acções físicas" de determinada modalidade. O que este autor diz basicamente e bem é que a preparação física de um atleta pode e deve ser realizada de acordo com a actividade física e respectivas solicitações/desgaste físico que as exigências comportamentais do jogo e seus conteúdos assim o pedem. Cada modalidade obedece a um tipo de conteúdos aos quais os preparados devem focar, actualmente fala-se muito no treino integrado...um treino completo que deve abranger todas as vertentes do jogo e que permite aos atletas abordar constantemente os comportamentos adoptados nos jogo, este tipo de treino tem muito que se lhe diga!! e quem disser que não faz mais nenhum exercício físico descontextualizado, seja ele o Mourinho ou o Nuno Amieiro ou o Zé do Pipo, mente com os dentes todos, porque isso é meramente impossível. Corrida continua sem bola 10 a 15minutos, num jogo de futebol de 11 não existe, não acontece, vemos jogadores a fazer sprints, a saltar, correr, voltar a fazer um sprint de 20m etc...
Outra questão que deixo aqui que sempre me intrigou nos meus anos de estudante universitário: se cada ser humano é um ser único diferente, será que a preparação física tem exactamente o mesmo efeito esperado por quem a aplica em todos os atletas; será que respeita as características e especificidade de cada um??!! a exemplo faz-me lembrar o desabafo “popularucho” que se diz por ai "ele come tudo e não engorda, eu como qualquer coisa engordo logo".
Obviamente que a resposta é NÃO. Mas também é impossível efectuar uma preparação individual perante um grupo de 25 atletas, logo a que se faz é pensado e generalizado, dai a dificuldade de preparar bem um grupo.
Já repararam numa coisa engraçada?! Numa equipa de futebol e de outras várias modalidades nos staffs técnicos, há um treinador principal e quase sempre um PREPARADOR FISICO, porque será? Não vemos um treinador principal, um treinador de técnica, um de só de táctica, outro para trabalhar a mente!!!! Ora eis a questão, porque ser preparador físico é difícil e dá muito trabalho e é uma responsabilidade que maior parte dos treinadores (incluindo os de topo) não quer assumir, pois é muito interessante modelar uma equipa, escolher um ou outro 11, desenhar estratégias, etc...”ser mister de banco” mas a parte física fica para quem?!? Ser preparador físico é ter um conhecimento profundo do ser humano é preciso ser estudioso ter rigor cientifico, seguir um rumo previamente definido porque os efeitos do erro verificam-se no corpo do atleta, enquanto que uma má opção táctica pode dar uma derrota uma má preparação pode dar uma lesão.
Quem tem esse papel nos clubes deve ser altamente rigoroso e fazer uma gestão e planificação exímia. Preparação física adaptada aos conteúdos comportamentais do jogo X é o êxtase supremo, mas só alguns conseguem aproximar-se dessa fronteira de perfeição irreal.
Para concluir, milhares de pessoas sabem cozinhar "arroz de pato", pode ter o mesmo resultado final (sabor)...mas a forma(método) como cada um a cozinha varia imenso!
Abraço
Luis Filipe
A meu ver, e baseado nas teorias contemporâneas da ciência, a preparação física deve advir daquilo que é a preparação táctica, da preparação de uma determinada concepção de jogo.
Essa concepção, para ser concretizada e "concreta" terá, naturalmente, as suas múltiplas exigências (neste caso exigências fisiológicas).
É importante pensar que, sendo "o físico" um dos meios para atingir um determinado objectivo de jogo (uma forma de jogar), ao modelarmos esse mesmo jogo, estamos a incidir indirectamente em questões (ou dimensões) como a preparação física, a preparação cognitiva, a preparação emocional, a preparação técnica, entre as variadas preparações que o jogo possa requisitar. É um processo sistémico.
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